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27 de out. de 2011

Crônicas de um Espírito - Capítulo 7

Só para constar, eu sou espírita, mas não terminei a evangelização nem nada. Muito do que eu falo vem do meu próprio presumir e entender das coisas, então me perdoem caso haja alguma incoerência com o que é dito na doutrina.


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Todos nós morremos um dia. Está é uma certeza que podemos ter a partir do momento em que nascemos. A morte do corpo virá para todos. As vezes nos apegamos tanto ao passageiro que mesmo depois de muito sofrimento, ainda negamos a mudança. Mas não tenha dúvida, o universo é imparcial e justo. É o nosso trabalho iluminar os pensamentos de nossos irmãos que se deixaram dominar pela matéria.


Já fazem alguns meses desde que eu comecei a acompanhar este caso. Mesmo depois da morte, este irmão se recusou a entender e a aceitar o que se sucedeu, e até o momento ainda não se desprendeu da matéria.


A dor do desfalecer da carne e dos ossos já o levou a loucura diversas vezes, a ponto dele nem mesmo lembrar sua própria identidade. E ainda assim, ele permanece fechado para mim.


É a escolha dele. Enquanto ele não desejar ajuda, não posso intervir. Apenas Deus sabe por quanto tempo ainda vou ter que esperar aqui, ao lado dele, até que algo possa ser feito. 


...


Mais alguns meses se passaram. Mal sobraram ossos agora, e ele fez muito pouco progresso. Durante alguns segundos, ele pôde me enxergar, e esteve bem perto de pedir ajuda. Mas agora que eu já pude amenizar sua dor e ele em fim recuperou algumas de suas memórias, as verdadeiras reflexões irão começar.


Depois, ele precisará de um tempo para se curar de todas as feridas em seu perispírito. Quem sabe então ele estará finalmente preparado para estudar suas próprias atitudes e voltar para corrigir seus erros.


Pobre irmão... 


...


Depois de mais algumas semanas, ele finalmente clamou por minha ajuda. Todas as orações direcionadas a ele durante tanto tempo fizeram efeito, ele parece ter compreendido muito mais do que eu esperava. Agora vem a parte difícil, adquirir a sabedoria para lidar com essa nova compreensão. 


Isso é só o começo de mais um longo trabalho. Mas as coisas serão bem melhores daqui para frente.


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"Quando só existe dor e sofrimento no presente, aqueles que acreditam na felicidade sabem que a única resposta esta no futuro."

10 de fev. de 2011

Crônicas de um Espírito - Capítulo 6

Todos nós morremos um dia. Está é uma certeza que podemos ter a partir do momento em que nascemos. A morte do corpo virá para todos. As vezes nós aproveitamos o tempo que nos foi dado para fazer a diferença, e as vezes nos cegamos no nosso egoísmo e cometemos erros do pior tipo. Mas não tenha dúvida, o universo é imparcial e justo. É o nosso trabalho tentar manter nossos irmãos no caminho que eles mesmos escolheram para alcançar a luz.

Desde que nasceu, César tinha problemas para mover suas pernas. Com o passar dos anos, esses problemas se espalharam para os braços e eventualmente, ele se tornou incapaz de andar e de utilizar as mãos.

Aos oito anos, ele perdeu completamente a mobilidade das pernas e começou a depender cada vez mais dos outros para conseguir viver uma vida normal. Aos doze, suas mãos já não eram capazes de segurar um garfo e ele precisava de ajuda para comer. Aos quinze, seus braços eram completamente inúteis e ele passava a maior parte do tempo em seu quarto, deitado na cama sem se mover. Todo este tempo, eu estive ao lado dele.

E agora, aos vinte e três anos, César se encontra em estado semi-vegetativo, recusando alimento e medicamento. Lentamente, sua saúde vem diminuindo e cada vez mais frequentemente ele tenta se matar.

E esta vai ser minha última interferência.

Todo dia, ao meio dia exatamente, os pais de César o levam a mesa e tentam fazê-lo comer o almoço preparado especialmente para ele. Hoje como sempre, ele tenta recusar com todas as suas formças, mas já faz dois dias que ele não come nada e sua mãe continua persistindo até que ele abre a boca e aceita que o alimentem.

Mas a cada garfada, uma idéia surge em sua mente. Depois de tantas tentativas falhas, ele havia quase desistido, mas a tentação dessa idéia era forte demais. Na sétima garfada, ele tentou se engasgar com a comida.

Sua mãe levou um susto, seu pai não sabia o que fazer.

"Não se preocupem, vai dar tudo certo" Afirmei. Minhas palavras como sempre não chegaram a alcançá-los, mas deram tranquilidade o suficiente para que conseguissem intervir da forma correta no ataque do filho e evitar que este morresse.

"César, esta é a última vez que posso ajudá-lo. Daqui para frente, é sua escolha querer viver sua vida até o fim ou tentar encerrá-la como tem feito tantas outras vezes."

Com um toque de minha mão e uma leve transferência de energia, eu diminui mais uma vez a capacidade de locomoção do corpo de César, impedindo-o de mover a língua com liberdade.

"Seus pais vão ligar para um hospital depois do que aconteceu hoje. Lá eles vão saber como lidar com sua situação. Espero que entenda desta vez. Adeus"

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"Nenhum mal nos aflinge por razões alheias. Tudo tem sua razão, e não existem pontos sem nós "

24 de nov. de 2010

Crônicas de um Espírito - Capítulo 5

Todos nós morremos um dia. Está é uma certeza que podemos ter a partir do momento em que nascemos. A morte do corpo virá para todos. As vezes você vive a vida livre como um pássaro, e as vezes nos vemos engaiolados em nossa própria impotência. Mas não tenha dúvida, o universo é imparcial e justo. É o nosso trabalho ajudar nossos irmãos a entender seus problemas e a superar suas provações.

Marcelo andava em sua moto pela avenida da cidade. Estava voltando da casa de sua namorada depois de mais uma briga. Uma forte tempestade começou a cair, forçando Marcelo a estacionar e a procurar abrigo.

O único lugar aberto era uma quadra coberta que ficava do lado de um terreno numa rua extremamente inclinada. Como era perigoso entrar com a moto naquela descida, Marcelo estacionou a moto na esquina e desceu a rua andando. A calçada parecia muito escorregadia, mas ele caminhava lentamente sem se preocupar com se molhar.

"Você costumava vir aqui com seus amigos quando era mais jovem. Onde estão seus amigos agora?" Perguntei.

Afetado pelas minhas palavras, Marcelo se sentou na arquibancada e começou a lembrar da época em que jogava com seus colegas nos finais de semana dentro daquela quadra. Haviam sido feitas muitas reformas para evitar os antigos deslizamentos que ocorriam na rua, tornando quase impossível pular as grades para o terreno.

"É verdade, muitas vezes a bola acabava sendo chutada para o terreno e você tinham que descer para pegá-la" Disse eu.

Novamente influenciado por mim, ele relembrou das inúmeras vezes em que a bola havia caído no terreno e todos ficavam com medo de ir buscá-la. Não demorou muito para seus pensamentos se voltarem aos seus antigos amigos.


"Onde estariam eles agora?" Pensava Marcelo. Ainda na juventude, a maior parte deles começou a se envolver com drogas e pouco a pouco, eles perderam contato. Desde então, nunca fez novas amizades. Agora ele era apenas um motoqueiro cansado e molhado que acabou de brigar com a namorada por algo bobo.

"Ainda existem muitas pessoas que lhe querem bem Marcelo. Seus amigos que já vieram também não são excessão." Disse eu.

Marcelo pegou o celular e tentou ligar para a namorada. A ligação caiu na caixa postal, ele presumiu que ela tivesse desligado o celular.

Levemente sonolento, Marcelo pensava em quanto tempo demoraria para a tempestade passar quando ele viu um dos garotos jogando na quadra chutar a bola por cima da grade para o terreno.

Convencido de que poderia ajudar, ele se voluntariou a ir buscar a bola. "É muito perigoso para garotos da idade de vocês pularem uma grade desta altura, ainda mais de noite!" Disse ele.

Confiante, ele escalou a grade e habilidosamente, ele desceu no terreno íngrime e recuperou a bola. Imediatamente, ele atirou a bola de volta, mandando-a por cima da grade de volta para o campo.

"É como quando você era jovem não é?" Disse eu.

Marcelo sorriu na chuva. Motivado, ele resolveu voltar para a casa da namorada e pedir desculpas pelo ocorrido. Em seguida, ele deu a volta no terreno e voltou a quadra, onde ficou até a tempestade parar.

Assim que a chuva acabou, ele subiu novamente em sua moto e disparou de volta a casa dela.

"Você é um homem muito bom. Espero que consiga passar pelo que passou nesta vida no futuro e ainda manter este sorriso. Mas não há mais necessidade de você continuar aqui" Disse eu.

A moto de Marcelo derrapou na pista molhada, colidindo com um poste enquanto ele era atirado de cabeça contra o chão. Seu capacete ainda estava pendurado na moto.

Lucas Rangel Lima

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"Abençoado é aquele cuja vida é repleta de memórias tristes, pois é este que mais sabe apreciar um momento feliz"

2 de out. de 2010

Crônicas de um espírito - Capítulo 4

Todos nós morremos um dia. Está é uma certeza que podemos ter a partir do momento em que nascemos. A morte do corpo virá para todos. As vezes ela é particularmente cruel e acaba nos ferindo profundamente com culpa e pesar. Mas não tenha dúvida, o universo é imparcial e justo. É o nosso trabalho apoiar e guiar aqueles que se perdem ao perderem o próximo.

Fernando estava viajando de São Paulo a trabalho. Ele era caminhoneiro e estava terminado uma entrega de produtos na Baixada Santista, se aproximando de Peruíbe.

Ele estava muito cansado. Havia passado a tarde inteira dirigindo e mal podia esperar para poder jantar, assistir um pouco de televisão e dormir em paz. Sua esposa havia ligado para ele avisando que iria passar o final de semana na casa da mãe, que estava doente, deixando a casa só para ele.

Fernando também estava preocupado com a sogra, que está doente há muito tempo e não mostrava sinais de melhora. Mesmo com os desacordos com o sogro, ela sempre apoiava o relacionamento dele com sua filha, e doia muito pensar em perdê-la.

Mesmo assim, fazia muito tempo que ele não tinha um final de semana inteiro para si mesmo, então ele acelerou o caminhão um pouco mais.

"Tome mais cuidado no trânsito. Mesmo que você aumente a velocidade, não ganhará mais do que alguns minutos." Disse eu.

Minha vóz não o alcançou, mas mesmo assim ele pode sentir as minhas palavras e, consequentemente, diminuir para uma velocidade segura.

"Estamos quase chegando. Logo estaremos em Peruíbe e você poderá fazer a sua entrega. Mas nem tudo vai como o esperado. Você também não pode se culpar por isso sabe?" Disse eu.

Continuamos por mais alguns minutos na estrada até nos aproximarmos da entrada de Peruíbe. Fernando estava um pouco sonolento e planejava tomar um café na cidade antes de voltar para São Paulo. Já havia feito algumas entregar por lá no passado e conhecia alguns lugares onde poderia comer alguma coisa. Além disso, ele já estava ficando enjoado de tanto ficar na estrada.

"Preste atenção na estrada Fernando. Falta pouco." Disse eu "Hoje eu vim buscar um irmão que veio apenas para pagar o tempo que ele devia de sua vida passada. E você será o intermediário."

Fernando parecia mais disperto e atento conforme eu falava. apesar de não escutá-las, minhas palavras ainda surtiam efeito nele.

"Nada do que está prestes a acontecer é culpa sua. Isto também será uma provação para você. Não sofra mais do que o necessário, não há razão para carregar cruzes que não existem. A ilusão da separação é apenas momentânea. Encare tudo como uma lição."

Segundos depois, fizemos uma curva e entramos em peruíbe. Logo depois da pirâmide que marca a entrada da cidade, Fernando avistou a silhueta de uma mulher com um carrinho de bebê a atravessar a rua no sinal vermelho. Todo o resto aconteceu muito rápido. Um carro businou e avançou contra a mulher sem conseguir frear, atropelando-a. Numa tentativa de salvar sua criança, ela empurrou o carrinho para frente segundos antes de ser atropelada. O carrinho desgovernado acabou rodopiando e parando na frente do caminhão de Fernando. Não houve tempo para desviar.

Lucas Rangel Lima

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"Nada é como achamos que deveria ser, e entre as coisas que nós julgamos que deveriam ser, pouquíssimas estão certas. Sabendo disso, devemos tentar nos compreender e ao próximo, para entendermos por que as coisas são como são."

1 de set. de 2010

Crônicas de um espírito - Capítulo 3

Todos nós morremos um dia. Está é uma certeza que podemos ter a partir do momento em que nascemos. A morte do corpo virá para todos. As vezes ela rápida e fulminante, as vezes ela se demora mais do que deveria. Mas não tenha dúvida, o universo é imparcial e justo. É o nosso trabalho esperar e ajudar as almas de nossos irmãos menores quando for necessário.

Daniel estava deitado em sua cama no hospital. Há muitos meses não saia daquele quarto, pois era necessário acompanhamento médico constante no seu caso. Ele já estava se sentindo mal há algum tempo antes de ser levado para o hospital, mas não havia levado os sintomas a sério. Apenas quando teve um ataque cardíaco na academia Daniel foi socorrido e descobriu suas doenças.

Em seu diagnóstico, constavam cirrose medicamentosa e complicações cardíacas resultantes do uso prolongado de anabolizantes. Se ele tivesse demorado mais algumas semanas para ser atendido suas chances de sobrevivência seriam mínimas.

"Graças a Deus..." Pensava Daniel.

Os médicos haviam marcado uma cirurgia de transplante de fígado para Daniel para hoje. Em alguns minutos ele estaria na sala de cirurgias sendo operado. Depois de ser operado e receber alta do hospital, ele planejava voltar para a casa dos pais e viver com eles até arranjar um emprego. O susto o havia convencido a desistir de usar anabolizantes e qualquer medicamento prejudicial a saúde.

Mas o médico havia avisado-o. Graças ao dano no coração, a cirurgia poderia ser perigosa, e ele poderia morrer. Mesmo assim, ele concordou.

"Toda cirurgia é perigosa, e eu posso morrer a qualquer momento mesmo!" Pensava ele.

Depois de alguns minutos, a enfermeira veio buscá-lo no quarto.

"Senhor Daniel? Vou levá-lo até a sala de cirurgias." Disse ela.

"Obrigado." Respondeu Daniel.

Eu os segui pelos corredores do hospital. Pelo caminho, vi vários outros pacientes acompanhados por espíritos como eu. Alguns ficariam ali por dias, talvez meses, até o momento em que finalmente desencarnariam, alguns seriam levados hoje mesmo, e talvez tenha algum que viva por anos agarrado a sua vida, carregando sua efermidade em desespero. Mas isso era escolha deles.

Daniel foi anestesiado e colocado na mesa cirurgica e a operação começou. As horas se arrastavam lentamente enquanto eu esperava o coração dele enfraquecer. A cada minuto os médicos pareciam mais confiantes e hesitantes ao mesmo tempo. A cirurgia estava indo bem e parecia que tudo iria dar certo.

"Eu não vou perder você!" Pensava a cirurgiã.

"Não, você não vai" Disse eu. "A morte é apenas uma travessia, não existe perda real. Não se preocupa, não será culpa sua".

Eu me aproximei do corpo deitado de Daniel e coloquei minha mão em seu peito. Meus dedos atravessaram seu tórax e chegaram ao seu coração. Imediatamente, Daniel sofreu um ataque cardiaco e morreu.

"Agora está tudo bem..." Disse eu para Daniel.

Mas antes de eu conseguir levar Daniel comigo, a cirurgiã interviu.

"O DESFRIBILADOR! RÁPIDO!" Gritava ela.

Os enfermeiros trouxeram o aparelho e ela rapidamente tentou reanimar o paciente.

"Não adianta. Ele precisa ir" Disse eu.

"NÃO COMIGO! NÃO NA MINHA MESA" Gritava ela.

"Não faz diferença. Não é responsabilidade sua" Insisti.

"EU NÃO QUERO SABER! VOCÊ NÃO VAI MORRER ASSIM!" Continuou ela.

Lentamente, eu retirei minha mão do peito de Daniel. Seus batimentos cardiacos voltaram lentamente ao normal.

"Muito bem então. Eu volto outro dia" Disse eu, por fim.

Lucas Rangel Lima

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"Se nós insistirmos, podemos quebrar qualquer pedra que esteja em nosso caminho. Mesmo que isto resulte em uma montanha caindo sobre nossas cabeças"

5 de ago. de 2010

Crônicas de um Espírito - Capítulo 2

Todos nós morremos um dia. Está é uma certeza que podemos ter a partir do momento em que nascemos. A morte do corpo virá para todos. As vezes ela envenena nossos corpos lentamente, as vezes ela nos abraça subitamente e nos afoga em desespero. Mas não tenha dúvida, o universo é imparcial e justo. É o nosso trabalho garantir que aqueles que se perderam no caminho da vida recebam ajuda ao fazer a travessia.

Rogério chegou tarde em casa. Havia passado o dia inteiro trabalhando e estava exausto. Ele morava sozinho em uma casa pequena no centro da cidade. Sua namorada vinha visitar de vez em quando, mas ultimamente ela vem reclamando demais do cheiro de cigarro impregnado na casa.

Em cima da mesa da cozinha havia uma caixa de cigarros. As palavras saiam roucas de sua garganta e seus pulmões fracos já não conseguiam puxar o ar direito, mas isso não impediu Rogério de pegar mais um cigarro e acendê-lo, sentando-se à mesa da cozinha.

"Sua namorada estará aqui amanhã de manhã" Eu disse a ele.

Minhas palavras não surtiram efeito algum. Meus pensamentos não podiam alcançá-lo. Ele só conseguia ouvir a ele mesmo.

"Tomara que aquela mulher não me ligue de novo hoje... já estou cansado de ouvir ela falando o que eu tenho que fazer o tempo todo" Pensava ele.

O vício já havia consumido sua mente. Seu egoísmo o havia cegado, e ele já não dava ouvidos a mais ninguém. Nem a ele mesmo.

Rogério fumava desde que tinha treze anos. Seus pais morreram cedo, e ele foi obrigado a cuidar de seus irmãos mais novos sozinho quando tinha 19. Mesma época em que seu vício começou a assumir o controle.

"Ela está ao seu lado a tanto tempo Rogério. Esta não é a coisa certa a fazer. você vai abandoná-la"
Disse eu.

Desta vez, ele reagiu.

"Quem ela pensa que é? Eu não sou mais uma criança, não preciso aceitar ordens de ninguém. Vivo minha vida do jeito que preferir"
Continuou ele.

"35 anos. Certamente você não é mais uma criança. Tem certeza da sua escolha?"
Disse eu.

Rogério começou a tossir. Conforme eu me aproximava a tosse ia se tornando mais violenta. Um pouco cambaleante, ele se levantou e procurou tomar um copo d'água. O copo tremia em suas mãos. Ao engolir a água, sua tosse diminuiu. Mas ele ainda não apagara o cigarro.

"Então estamos indo"

O telefone tocou. Era a namorada de Rogério.

"Parece que ela realmente se importa com você. Por favor, aproveite a chance que ela lhe deu"

Rogério antendeu o telefone.

"Alô?"

Sua vóz estava rouca e quase irreconhecível.

"Oi amor, sou eu... O médico ligou, ele disse que era terminal..." Disse ela

"Foi pra isso que você me ligou?" Respondeu ele, secamente.

"Eu só estou preocupada..." Continuou ela.

"Eu não preciso que sinta pena de mim"

Rogério desligou o telefone.

"Você fez a sua escolha" Disse eu.

Rogério sentou-se, acendeu outro cigarro e voltou a fumar.

"Vamos indo"

Eu estendi minhas mãos para o seu pescoço. Seus pulmões enfraquecidos pelo câncer não conseguiram aguentar e pararam de funcionar. Depois de agonizar por alguns segundos, ele deixou seu último cigarro cair ao chão.

Lucas Rangel Lima

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"As vezes nos irritamos com Deus ao ver nosso caminho bloqueado. Mesmo assim, Deus sempre bloqueia os caminhos que levam a perdição"

31 de jul. de 2010

Crônicas de um Espírito - Capítulo 1

Todos nós morremos um dia. Está é uma certeza que podemos ter a partir do momento em que nascemos. A morte do corpo virá para todos. As vezes ela pode ser cruel, as vezes ela pode ser perversa, mas tudo há uma razão de ser. E não tenha dúvida, o universo é imparcial e justo. É o nosso trabalho garantir que aqueles que precisam de socorro quando suas horas chegam tenham suas preces atendidas.

A criança olhava para a vitrine da loja de brinquedos fascinada. Seus pequenos olhos negros brilhavam de excitação ao admirar aquela variedade de bonecos e carrinhos. Aquele era o seu consolo durante as noites frias daquele inverno.

Todos os dias ela retornava a aquela loja, simplesmente para observar os brinquedos. Ela não tinha casa ou familia, apenas a loja para lhe acalentar a tristeza. Apenas estar ali já a deixava em paz. Mas naquela noite, eu a acompanhava.

Era uma noite especialmente fria. Como sempre, a criança se posicionara na frente da vitrine, a olhar os brinquedos. Mas algo havia mudado. A alegria e o consolo de sempre haviam sumido. Muitas pessoas conversavam aflitas dentro da loja, a vitrine estava quebrada e os brinquedos estavam espalhados. O segurança, Ao avistá-la na frente da loja, se dispôs a expulsá-la.

A loja havia sido roubada naquela tarde, e o segurança estava irritado. Ele corria o risco de perder o emprego, e ao olhar para a criança, ele resolveu descontar toda a sua raiva. "Ninguém iria intervir por uma criança que mora na rua", pensou ele.

"Suma daqui! Vá embora ou eu chamo a polícia!" Gritou o segurança.

A criança se assustou e tropeçou, caindo no chão. O segurança se aproximou com o intuito de violentá-la.

"Afaste-se dela" Disse eu.

Ele parou. A criança havia machucado o braço ao cair, mas conseguiu se levantar, ainda que muito assustada.

"Suma e não apareça nunca mais! Eu não quero te ver por aqui mais uma vez" Disse o segurança.

A criança começou a correr em desespero. Ela não havia feito nada. Cheia de medo e insegurança, ela correu até que as suas pernas não pudessem mais aguentar. Dominada pelo frio e pelo cansaço, ela desmaiou no chão gelado, para nunca mais levantar.

Lucas Rangel Lima

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"Se você se arrepende do passado, não pense no que poderia ter sido. Pense no que você vai ter que fazer para mudar o que está por vir"

30 de jul. de 2010

Crônicas de um Espírito - Capítulo 0

Todos nós morremos um dia. Está é uma certeza que podemos ter a partir do momento em que nascemos. A morte do corpo virá para todos. As vezes é rápida, as vezes é dolorosa. As vezes ela se arrasta por longos anos e as vezes ela te agarra antes mesmo de você alcançar a juventude. Ela é imparcial e justa. E é o nosso trabalho cuidar daqueles que precisam de ajuda quando suas horas chegam.

Sérgio estava no seu carro, viajando de Santos para São Paulo. A estrada estava pouco movimentada, e ele dirigia sem grande preocupação. Havia saido de casa de manhã cedo para evitar o trânsito e economizar tempo, queria voltar para casa o quanto antes, pois o aniversário do seu filho seria no dia seguinte.

Distraido com a música que tocava em seu rádio, Sérgio cantarolava pela estrada comigo ao seu lado. Meu erro, da banda Paralamas do sucesso.

"Você sempre gostou dessa banda..." Disse a ele. "Des de que a escutou pela primeira vez, suas musicas nunca deixaram de te animar."

Ele não me respondeu. Ou melhor, ele não me escutou. A música não estava alta, mas a minha vóz nunca alcançaria seus tímpanos.

"Sabe Sérgio, o presente que você comprou para o seu filho foi muito bacana. Ele com certeza vai adorar."

Sérgio sorriu. minhas palavras não podiam ancançá-lo, mas ele podia senti-las. Ele começou a fantasiar sobre o dia seguinte, imaginar o seu filho abrindo os presentes, sorridente, alegre, brincando com os amigos, comendo doces e bolos.

"Ele é um bom garoto, realmente. Você o criou bem..." Disse eu. "E ele te ama muito sabe... eu sei que ele não fala isso com muita frequência, mas é normal para a idade dele".

Lágrimas começaram a escorrer pelo rosto de Sérgio. Uma sensação ruim percorria seu corpo. uma tristeza repentina havia se instalado em seu coração.

"Me desculpe... Não consigo não me sentir mal pelo garoto. Ele vai passar por uma fase horrível por uns tempos." Disse a ele.

Minhas emoções continuaram a afetá-lo. O CD do paralamas estava quase no final de sua última música.

"Mas sabe Sérgio... As coisas acontecem por uma razão. Você não pode mais ficar neste mundo, não há mais nada para você aqui."

Sérgio estendeu a mão e removeu o CD do rádio para pegar outro.

"Seu tempo acabou Sérgio."

Eu esbarrei na mão dele enquanto ele trocava o CD, derrubando-o no chão. Ainda afetado por mim, ele enxugou as lágrimas e se abaixou para pegar o CD, colidindo com a traseira de um caminhão.

Lucas Rangel Lima

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"Não é preciso viver a cada dia como se fosse o último. Só saiba que, ao deixar o dia passar, você perdeu uma chance de estar com aqueles que você ama, e que esta chance não irá mais voltar."