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9 de out. de 2013

Sou se sou

Tem algo bem guardado dentro de mim que quer que seja mostrado, lido e que faça sentido na vida de quem o ler. Mas tá bem guardado, trancado, escondido, envergonhado. 
As consoantes, as vogais, as letras, as palavras e as frases se embaralham nessa timidez, nessa complexidade de pensamento. Vive comigo, sobrevive dentro de mim.
É a minha maior verdade, minha realidade adormecida, minha vida não vivida. Sou eu, mas não sou quem sou.
Sou o que quero ser, quando o que quero não sei se realmente devo.
Se devo, se posso, se sou. 
Se devo, não sou. Apenas sou por ter de ser. Sou por influência, por fatores externos, pelo o que os outros são. Se são, por que devo ser? Sou por que devo ser e devo ser por que sou. Acabo sendo tudo o que sou por dever ser pelo o que são. Ou vocês também são por que devem ser? Não somos, achamos que somos por que devemos ser.
Se posso, sou. Sou eu, sou meu. Sou tudo o que sou por que sou o que posso ser. Esse sou. sou por poderem ser e se podem ser: posso ser também. Sou além do que sou quando o além me é possível. Sou possível. Sou incrível, invisível, intangível. Sou meu eu cabível
Se sou, eu sou: por que sou. Há de ser. Há de viver, há pra ser o que sou. Sou por ser, sem querer, sem ofender, sem dizer, sem escrever, sendo sou o que sou. E o que sou vou sendo. Vou vivendo pelo o que sou e sou o que vou vivendo.
Sou e não deixo ser. Só sou.

29 de jul. de 2013

A Caminhada

Ele saiu de casa naquela tarde sem saber direito ao certo aonde queria ir. Planejava apenas escapar daquela casa, tão cheia de memórias e tão vazia, onde só poderia passar o tempo sozinho. Dar uma caminhada pelo centro da cidade, pela orla da praia... Ver o mar enquanto escutava suas músicas favoritas.

Ele então vestiu uma jeans e uma camisa preta, uma blusa e colocou um óculos escuro. Vestiu também luvas, pois apesar do sol, o vento ainda era frio. Por fim, calçou o tênis e partiu.

Depois de mais de meia hora, seus pés finalmente o guiaram até a areia e o mar. Deserta devido ao inverno, a praia parecia uma amiga que ele não via fazia anos, e que reservara aquela tarde apenas para recebê-lo.

Mas incapaz de se distrair com o cenário e com a música, ele permaneceu engasgado com suas dores. Desejado alguém para conversar, alguém para agredir, alguém para rir, alguém para fazer sangrar... Alguém para abraçar, talvez.

Foi então que ele viu uma garota, vestida com o mesmo preto de seu luto, descer para a areia e passar andando. Ela parecia apressada, com raiva talvez. E charmosa.

Solitário e hesitante, ele a fitou rabiscar algo na areia entre muitos outros rabiscos e logo cedeu a curiosidade. A única coisa em sua cabeça era a esperança, a luz, a ansiedade... 

Mas em seu peito ainda jazia o medo e a dor.

Ele a fitou partir e se virar para olhá-lo.

Na primeira vez, ele pensou "Preciso voltar. Vou me arrepender se ela se virar de novo."

Na segunda vez, ele pensou "Eu preciso correr. Mas será que ela vai se virar de novo?"

Ne tercera vez, ele pensou "Porque eu fiquei parado?"

E por pensar que já era tarde demais, já era tarde demais.

Ele voltou para casa naquele fim de tarde sem saber ao certo o que devia sentir. Desejava apenas escapar daquela sensação, tão amarga e tão dolorosa, que só fazia aumentar sua solidão. Escrever uma poesia, uma crônica ou uma canção...

Repensar seus arrependimentos e dores mais queridas.

Lucas Rangel Lima

16 de mai. de 2013

A Living-Dead Nightmare - Con Carne I


A mulher sentada a sua frente parecia estar morta a semanas.
Tanto o cheiro quanto a aparência se assemelhavam ao que se esperaria de um cadáver em decomposição.
Mas isso não o impediu de se apresentar claramente à sua aproximação:
"Eu sou Delphos, e aqueles que procuram ajuda devem oferecer algo em troca."
Eles haviam sido avisados disso, e já sabiam como prosseguir.
"A oferenda vai ser feita após a consulta." Disse um deles, sem muita confiança.
"Desde que seja feita... Perguntem o que desejarem, e responderei o que eu puder..."
Parecia mais simples do que era. Eles já sabiam como funcionava, só poderiam fazer três perguntas soubesse ela respondê-las ou não; Eles tinham que perguntar com cuidado...
"O que você sabe sobre os comensais?"
"Sei que os primeiros apareceram aproximadamente cem anos atrás.
Sei que só se alimentam de humanos, e que vão preferir caçar um vivo a se alimentar de um cadáver.
Sei que eles podem se reproduzir entre si, e também com humanos.
Sei que se você for morto por um, se torna um deles.
Sei que se for arranhado vai sofrer como nunca sofreu antes, e depois vai morrer; Para só então se tornar um deles."
"O que nós devemos fazer?"
"Podem lutar, mas morrerão.
Podem se esconder, mas serão achados.
Podem fugir... 
Sim...
Podem fugir...
Assim talvez tenham alguma chance..."
A última pergunta era a complicada; e muito provavelmente um desperdício...
"Os humanos poderão, algum dia, tomar de volta este mundo?"
"De volta?" Riu-se o cadáver.
"A criança fala como se tivesse, algum dia, sido de vocês esse mundo.
Já a mais de um século vocês perderam essa guerra, e não pense que algo mudará...
O último refúgio de vocês cairá em breve, e então nenhum lugar nessa Terra será seguro para vocês!"
O pânico já havia se instalado nos rostos dos humanos.. Eles haviam enraivecido à Deusa, e sabiam qual era a punição para isso.
"Esqueçam as formalidades." Disse para o homem ajoelhado aos seus pés.
"Faça dos homens oferendas, e dê-os de alimento aos meus filhos... E faça das mulheres receptáculos para a próxima geração."
Quando ela terminou de falar, eles já estavam sendo arrastados, aos gritos, para fora da sala.

7 de abr. de 2013

Ela e o Show

Não faço ideia do que escrevi aqui...

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Em um certo palco em uma certa cidade, uma banda qualquer tocava músicas em tributo a cantores e ídolos que morreram anos atrás.

Havia também uma plateia, repleta de jovens garotos e garotas. Álcool, suor e gritos misturados ao som da bateria, da guitarra e da canção. Uma, duas, três músicas em sequência, sem descanso. Todos na plateia exaltados, queimando o momento em animação.

Com excessão de uma garota.

Em meio a todos, ela permanecia apenas ela. Ignorando o barulho, ignorando os gritos, ela apenas fitava o palco, imersa na música.

Apenas ela e a banda.

Cinco, dez, quinze músicas se passaram. Da plateia, agora só restava metade das pessoas e um quinto da animação. A noite finalmente vencia a euforia, e acompanhada da chuva, logo ameaçou o show.

Apenas a garota permaneceu sentada, atenta ao som. Ignorando as gotas, ignorando o vento, ela apenas fitava o palco, imersa na música.

Até que só restou ela e a banda.

Há muito o show já havia se encerrado. Tanto o guitarrista e o baixista quanto o baterista e o vocalista estavam exaustos, prontos para encerrar a noite e salvar os instrumentos da água. Os últimos da plateia agora se abrigavam distantes sob algum teto ou alguma árvore, esperando a chuva parar para partir.

Só então a garota se levantou.

Ela, que incorporava pensamentos do passado, paixões antigas e memórias. Ela, que ninguém sequer notou em momento algum. Ela, que estava em todas as plateias em todos os palcos ao mesmo tempo. Ela, que vivia dia após dia aquele mesmo show e tantos outros. Tantas homenagens, tantas emoções, tanta música...

Deixando para trás aquele certo palco naquela certa cidade onde uma banda qualquer havia tocado músicas em tributo a cantores e ídolos mortos anos atrás, a garota desapareceu.

E então,

O show acabou.

Lucas Rangel Lima

6 de set. de 2012

A História de Um Fantasma - Capítulo 6


Estou... Confusa.

Desde o dia em que Ele “falou”, eu comecei a me perguntar se Ele realmente... Pode me ver.

Ou melhor dizendo, como Ele me vê. Digo, será que eu envelheci? Será que ele me vê na forma em que eu morri? Ou será que ele me vê como eu era antes de ter morrido?

O primeiro caso é... Improvável. Fantasmas não envelhecem, certo?

De qualquer forma, o segundo caso... Eu não sei. Não me lembro do momento em que morri, então não sei. Talvez eu tenha sido esfaqueada ou algo assim, mas acho que se fosse o caso, ele estranharia mais. Seria como ver alguém com uma ferida que nunca se fecha.

Seria como... Ver um fantasma...

Será que ele sabe que eu estou morta? Que eu sou algo que não deveria existir?

Eu preciso saber como ele me vê. Eu preciso me lembrar. Daquele dia, daquele momento... Da forma como eu morri... Eu preciso me lembrar... Eu...

Não consigo... Eu me esqueci... Eu... Me esqueci!

Minha própria aparência! Foram tantos anos sozinha, que... Eu me esqueci de como era o meu rosto...

E meu nome? Como era o meu nome? O nome dos meus pais? Meus avós? Meus amigos? Qualquer coisa!

...

Quem sou eu?

12 de ago. de 2012

A História de Um Fantasma - Capítulo 5

Ele ainda não chegou.

Metade da noite já se foi e Ele ainda não veio. Algo deve ter acontecido. Não... Algo deve estar acontecendo. Não é a primeira vez que Ele se atrasa.

Mas é a primeira vez que Ele se atrasa tanto...

Será que ele não virá? Será que eu vou passar essa noite sozinha? E amanhã? Ele virá amanhã? Ele precisa vir. Eu preciso Dele. Sem Ele, eu...

Passos. Posso escutar o som de passos.

Ele chegou! Ele veio! Graças a Deus, Ele veio!

Preciso ir até Ele. Preciso vê-Lo imediatamente. Temos pouco tempo esta noite, não posso perder mais nem um segundo!

E lá estava Ele.

Seu rosto e suas vestes molhadas de suor, sua respiração ofegante. Cansado como quem correu uma maratona, Ele se encontrava deitado na porta da mansão, de frente para o jardim.

Eu me aproximei Dele preocupada. Parecia que Ele havia fugido de alguma coisa. O que será que aconteceu?

“A lua...”

“!!!!”

“É realmente linda...”.

Ele... Falou! Finalmente! Fui pega de surpresa e não consegui prestar atenção direito, mas eu pude ouvi-la! Eu pude ouvir a voz Dele!

Que felicidade! Que alegria! Todos esses anos, e eu finalmente...

Finalmente...

Finalmente.... Posso conversar com alguém.

Faz tanto tempo desde que conversei com alguém pela última vez. O que eu falo primeiro? Pergunto o nome Dele? Me apresento? Digo “boa noite”?

“Ei...”

Ah. Ele... Já adormeceu.

2 de ago. de 2012

Reminiscências de um Soldado

Eram duas horas da manhã. Os dormitórios, cujos ocupantes costumam estar sempre roncando e xingando não importa o momento, estão completamente silenciosos. E eu não conseguia dormir. Acho que nunca havia sentido tanto medo na minha vida inteira. Medo da morte e do arrependimento. A razão para isso tudo? Bem...

No fim da tarde do dia anterior, havíamos recebido uma notícia. Para muitos de nós, a última notícia.

Era um dia como outro qualquer, até que o capitão interrompeu o treino repentinamente e reuniu todos os soldados do quartel no pátio. A princípio, pensei que alguém tivesse colocado esterco na cama dele mais uma vez. Só posso dizer que ninguém esperava aquelas palavras.

"O exército inimigo avançou a uma velocidade inesperada. Os reforços que invocamos não chegarão a tempo. Batalharemos amanhã, e estaremos sozinhos."

Vinte e uma palavras, seguidas apenas por um triste "Dispensados". Três sentenças, que resumidas, significavam basicamente o seguinte:

"Todos nós morreremos amanhã."

Quando eu cheguei à essa conclusão, percebi que já estava tremendo. Tremendo e suando. Minha família, meus amigos, minha cidade... Os domingos em que eu jogava cartas com meus tios, as tardes que eu passava escutando meu pai tocar sua velha gaita, os doces que a minha mãe fazia para o meu aniversário e o dos meus irmãos... Eu nunca mais veria nada disso. Nunca mais veria nenhum deles.

Mas havia uma coisa que eu ainda podia fazer. Que eu tinha de fazer.

Me levantei então da cama e saí do dormitório. Os vigias noturnos me viram, mas não fizeram nada a respeito. Acho que eles não conseguiram me impedir. Provavelmente, eles também estavam aterrorizados. Afinal, também iriam morrer em poucas horas.

Sem me preocupar em me esconder ou coisa parecida, eu fui até a janela dele.

"Acorde. Preciso falar com você."

Alguns segundos de silêncio.

"Já estou indo."

Momentos depois, estávamos os dois sentados sozinhos no refeitório. Não trocamos mais nenhuma palavra, apenas nos consolamos com a companhia um do outro.

"Companheiro"

É assim que ele me chamava, e assim que ele me tratava. Desde que entrei nesse bendito exército, ele foi meu único apoio. Foi ele quem me ajudou quando eu precisei de ajuda, e que esteve lá por mim a todo momento. Sem ele, eu provavelmente teria morrido ou enlouquecido, como muitos outros fizeram após as primeiras batalhas. Ele sem dúvida era meu companheiro, mas... Aquela relação... Aquele tipo de relação... Em algum momento... Começou a me sufocar. Eu... Passei a querer mais.

"Preciso... Preciso te dizer uma coisa. Essa é minha última... Chance. Então..."

Minha voz tremia. Eu já havia aceitado a morte, mas por alguma razão, ainda me faltava coragem para dizer algumas poucas palavras...

"Então me diga" Disse ele, olhando no fundos dos meus olhos.

"Eu... Eu te amo."

Então eu disse. Quase gaguejando, eu disse o que outrora havia jurado levar para o túmulo. Eu disse, e agora sentia mais medo ainda. Mais do que a morte, eu temia a resposta.

Mas que cruel... Ele só me disse o seguinte:

"Depois dessa batalha, quando nós dois estivermos voltando para casa. Só então eu te darei minha resposta."

Lembrando disso agora, acho que ele só estava tentando me manter vivo. Só disse aquilo para me dar a impressão de que ele não havia desistido também. Para me dar esperança.

Ou talvez ele me amasse também. Talvez ele realmente acreditasse que voltaríamos juntos para casa. Eu não sei. E nunca vou saber.

Eu só sei que aquela granada foi atirada na minha direção, e que ele saltou sobre ela sem hesitar. Só sei que isso só seria possível se ele estivesse me vigiando o tempo inteiro, tentando garantir a minha segurança, a minha sobrevivência.

Por isso, não preciso de uma resposta. Ele me deu algo maior, algo que eu nunca poderei compensar. Mesmo que eu não tenha sido amado, o homem que eu amei provou que merecia esse amor. Provou com a própria vida.

É por isso que eu sou feliz. Que mesmo sozinho, eu sou feliz.

31 de jul. de 2012

A História de Um Fantasma - Capítulo 4


Hoje Ele chegou atrasado. Eu já estava ficando preocupada, achando que talvez algo tivesse acontecido, que Ele talvez pudesse ter se machucado...

Que Ele talvez não viesse...

Mas Ele veio. Ele veio e me encontrou, como sempre. Parece estar mais cansado do que de costume, e não trouxe nem mala nem livro, mas Ele veio até mim e se sentou mais próximo do que nunca. Ficamos olhando para o céu pela janela, até que Ele adormeceu.

Sua respiração era suave e encantadora. Ele parecia tão indefeso, tão frágil...  A cada minuto parecia crescer dentro de mim uma estranha vontade de protegê-Lo.

Mas protegê-Lo de que? E como? Eu... Sou só um fantasma. Nem mesmo sei o nome Dele. Não sei nada sobre a vida Dele. Nada desde o amanhecer até o anoitecer.

Ele só é meu por metade do tempo. Só durante a noite. Me pergunto o que Ele fica fazendo quando estou sozinha...

Será que Ele fica sozinho também? E eu sou sua única companhia?

Não pode ser...

Seria bom demais...

23 de jul. de 2012

A História de Um Fantasma - Capítulo 3

Ele acordou cedo hoje e partiu. Acabei ficando um pouco decepcionada, mas não posso fazer nada a respeito então logo me conformo e volto a fazer o de sempre.

Assombrar minha casa.

Bem, antigamente eu chamava de “andar por aí”, mas aí comecei a me perguntar se o que eu tenho ainda pode ser chamado de “pé” e se eu realmente estou “andando”. E como eu nunca deixei a casa...

Deixar essa casa... Quantas vezes esse pensamento me tentou? Principalmente desde que Ele veio. Morro de vontade (tá bom, o mais próximo disso possível) de segui-Lo toda vez que Ele vai embora, de conhecer mais sobre Ele do que apenas seu gosto por livros de suspense... Mas por alguma razão a única vez em que estive fora desses muros desde que morri foi no meu primeiro dia como fantasma.

O dia em que eu morri.

Desde então, não consegui mais sair. Acho que eu tinha medo de ser encontrada por algum anjo querendo me arrastar para o céu ou sei lá. Não que agora eu ainda me preocupe com isso. Afinal, se existe algum anjo a me encontrar, com certeza é Ele...

Sim... Ele deve ser alguma espécie de anjo. Um anjo só meu. Alguém que se importa comigo e que vai sempre estar lá para mim.

Todas as noites...

6 de jul. de 2012

A História de Um Fantasma - Capítulo 2

Como todas as noites desde que nos conhecemos, Ele não demora muito para me encontrar. Mesmo nesta enorme mansão, Ele sempre me encontra e logo se senta em algum lugar no mesmo cômodo. E então, de forma meio misteriosa, Ele pega um livro de sua bolsa como quem só veio até mim por acaso e começa a ler até cair no sono.

Assistir a Ele lendo e dormindo são minhas únicas diversões. Às vezes penso em falar com Ele, perguntar o seu nome, mas nunca consigo juntar coragem. Está bom assim. Não quero arriscar perdê-Lo...

É. Acho que me tornei uma daquelas jovens apaixonadas de romances de livros. Só que morta. Por um lado, posso assistir meu amado dormir todas as noites. Pelo outro, eu atravesso paredes.

Não consigo rir... Bem, não tem problema. O mais importante agora é...

“Uwaaa...”

...

Isso foi... Um bocejo? Ele ainda está acordado? Realmente, acho que ainda é muito cedo para começar a dormir, mas como eu vou saber? Não durmo faz tanto tempo... Ainda assim, Ele costuma ficar acordado por mais tempo não? Ele mal terminou de ler um capítulo! Será que está cansado? Me pergunto o que Ele fez hoje a tarde...

Melhor... Me pergunto porque Ele vêm aqui.

Será que Ele realmente vem para me visitar? Não, isso eu tenho certeza, já que Ele sempre acerta onde eu estou... E Ele não parece ser muito mais velho do que eu. Dezesseis, dezessete talvez? Ainda deve ser um estudante. Que tipo de pai deixaria o filho dormir fora todas as noites?

Ou será que Ele é um morador de rua? Não, Ele muda de roupa todos os dias... Talvez Ele esteja fugindo de casa? Também não, nesse caso Ele estaria carregando uma mala maior... Eu acho. Enquanto aos livros? Toda semana é um livro novo, ou mais. E não parecem ser de nenhuma biblioteca pública, não possuem selos nem carimbos...

Quando finalmente me dou conta, estou ajoelhada ao lado do rosto Dele. Uma face dormindo não vai responder minhas perguntas, mas não consigo me controlar.

“Eu queria poder tocá-lo...” Digo em voz alta.

Ele não me escuta. Claro que não...

3 de jul. de 2012

A História de Um Fantasma - Capítulo 1

O que é estar vivo? Respirar, comer e crescer como os animais? Conversar e interagir com as pessoas que te cercam? Meramente existir? 

Amar?

Faz tempo desde que essa pergunta começou a me incomodar. Muito tempo. 

Era apenas um feriado qualquer. Os empregados haviam tirado um dia de folga e meus pais tiveram que sair. Eu iria ficar praticamente sozinha até tarde da noite.

Sim, certamente eu sabia que era perigoso. A mansão era grande e isolada, atraía muita atenção. Mesmo alguns guardas estando presentes, era certamente possível que alguém mais bem preparado invadisse e se aproveitasse da situação.

Infelizmente, isso não me preocupara. Era meramente uma possibilidade, uma hipótese. Melhor, algo que acontecia com os outros, no rádio ou no jornal. Não comigo. Nunca comigo.

Dói lembrar como eu fiquei surpresa e chocada com tudo. Em um momento, escuto um barulho vindo do lado de fora do quarto. Pensando que talvez meus pais tenham chegado mais cedo, resolvo ir cumprimentá-los como uma boa filha.

Em seguida, nada.

Não consigo me lembrar de mais nada depois disso. Ou melhor dizendo, as memórias de meu tempo viva acabam aí. Quando me dei conta, estava lá fora, morta. Meu corpo numa grande sacola preta, uma ambulância barulhenta e meus pais chorando. Já havia anoitecido, o que indicava que pelo menos cinco horas haviam se passado. 

E desde então eu fiquei aqui. Meus pais não suportaram viver na casa onde a filha morreu, mas também não conseguiram demoli-la ou vendê-la. Nem sei se estão vivos ainda hoje. Não sei quanto tempo passou.

Muitas pessoas moraram aqui. Nenhuma podia me ver, mas acho que minha presença não passava despercebida. Em poucos anos, a mansão em que eu cresci e que um dia me abrigara havia ganhado fama de assombrada, e agora ninguém mais a habitava.

Apenas eu. 

Engraçado... Não era como se eu tivesse companhia nos tempos em que estranhos viviam na casa sem saber de mim, mas agora que eu estou realmente sozinha, sinto falta de ter outras pessoas por perto. E acima de tudo, sinto medo...

Não. Eu sentia medo. Mas agora é diferente. Sim, todas as dúvidas e temores fazem parte do passado agora, basta esquecê-las. Está anoitecendo, mas eu não preciso me preocupar mais.

Porque Ele está vindo me visitar...

30 de abr. de 2012

O Casal na Praia Noturna

Boa noite. Desculpem-me pela ausência recente, estou escrevendo uma série nova e achei melhor completá-la antes de começar a posta-la, assim garanto que vou posta-la por completo sem muita demora.

Muito bem, vamos ao que interessa...

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Ontem a noite, caminhando pela praia
Eu presenciei, por pura coincidência

Um homem apaixonado,
Escondendo as lagrimas atrás de um sorriso
Uma mulher amada,
Transmitindo seus sentimentos em um abraço

Não havia lua,
Não haviam palavras.
Apenas os dois, ignorando o mar

Cheguei a pensar "Que lindo"
E até a sentir inveja
Mas por mais belo que fosse os dois
Não vi sequer sombra de felicidade

Então virei o rosto
Não era direito meu assistir a aquilo
Quer fosse uma briga, uma despedida
Uma promessa ou um pedido de perdão
Era um momento deles
Não meu

Mas que pena,
O fiz muito tarde

Agora só me cabe esquecer
Ou melhor, fingir que não vi

Que em um dos dedos dela, havia um anel
Mas nos dele não...

Lucas Rangel Lima

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"Uma das coisas mais tristes da vida é descobrir que até quem perdeu tudo tem mais do que você."

12 de abr. de 2012

Humanóide - Capítulo Final

Finalmente...

Não sei se esperei dias ou horas por esse som desde a ultima vez que estive são o suficiente para checar a data. Não me lembraria, de qualquer forma. Só sei que o dia que eu tanto esperava finalmente chegou.

Tomo as ultimas doses, que guardei para esse momento. Minha consciência volta ao normal instantaneamente, e eu me sinto relativamente bem pela primeira vez em semanas. Em seguida, estendo o braço para o meu celular e desligo o alarme

"12 de Abril - O Aniversário Dela"

Meu último dia chegou. Eu prometi que iria partir nessa data, e assim o farei. A overdose que acabei de ingerir deve dar conta do trabalho em poucos segundos. Com os sentidos aguçados, o rápido desligamento parece até tangível. A dor e o alívio me encurralando cada vez mais... Quase não tenho tempo

E pela primeira vez desde que ingeri a primeira pilula, eu me lembro dela. Com uma clareza e fidelidade dignas da melhor das câmeras, eu vejo o rosto dela em minha mente uma última vez. Eu assisto um flash-back de nossos momentos juntos passando e frente aos meus olhos, não deixando passar nem um mínimo detalhe

E finalmente, eu me permito lembrar daquelas últimas palavras.

"Me desculpe."

"Me desculpe."

Me desculpe...

Lucas Rangel Lima

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"Perdoar não é difícil só quando temos raiva, mas também quando estamos infinitamente tristes."

10 de abr. de 2012

Ele Teme

O homem acorda de noite e se recusa a levantar, pois a algo ele teme. Em seu quarto seguro, a noite ele teme. Sob seu quente cobertor, o frio ele teme. No seio acolhedor de sua amada, a solidão ele teme.

Os segundos se arrastam, e o sonho não volta. As sombras o cercam no escuro, e ele continua a temer. "Porque?" ele pergunta a si mesmo, "Porque? Porque me açoita cruel a toda chance? Porque me persegue e me envolve impiedoso? Porque?"

Tremendo e temendo, o homem chora. O home chora, até que o sol a noite afasta. O homem chora até que o calor o frio consome. O homem chora, até que a companhia faça esquecida toda a solidão. Mas sua resposta, ele não obteve.

Quem sabe esta noite ele acorde novamente. Quem sabe o temor lhe venha visitar de novo. Quem sabe ele nunca mais seja capaz de dormir em ataraxia. Quem sabe... Ele obtenha sua resposta...

Lucas Rangel Lima

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"Se medo é irracional, então basta raciociná-lo para vencê-lo."

28 de mar. de 2012

Humanóide - Capítulo 2

Cada gulfada de ar se prova um esforço tanto físico quanto mental. Os pulmões cansados já não conseguem mais trabalhar, e a dor que atravessa minha garganta é simplesmente excruciante. Se eu já não estivesse louco, teria perdido minha sanidade a dias.

Independente disso, estico meus braços até o criado mudo e apanho outro comprimido. Ando precisando de tomar pelo menos dois para poder levantar da cama nos últimos tempos. Esse foi o quarto.

Finalmente meu corpo parece voltar ao normal. Irônico. Quando eu finalmente me torno capaz de odiar essa droga, meu corpo já não consegue viver sem ela. Talvez assim seja melhor... Definhar preso a essa casa, a essa vida... Sim, não consigo pensar em um final melhor.

Final? HA! Segure as rédias, eu mesmo. Ainda temos alguns passos para dar antes de cair. Falando nisso, que dia é hoje?

Estendo a mão para alcançar meu celular e olhar para o calendário. Estranho, faz uma semana desde que me dispensaram do trabalho e tudo parece ter ocorrido ontem... Será que comecei a me esquecer? Mas não é assim que a droga funciona...

Não importa. Não ligo. Se a droga estiver finalmente roubando das minhas memórias mais do que o que eu desejo, é culpa minha. Afinal, é normal para um tigre devorar zebras não? Ou são os leões? Huum... O que eu estava pensando mesmo?

Ah, deve ter sido nela. A droga sempre me faz esquecer quando penso nela. Deve ter sido isso...

Logo logo chegará o fim do mês...

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"Nada pode ser verdadeiramente esquecido. É só você que não sabe como se lembar."

12 de mar. de 2012

Humanóide - Capítulo 1

Acordo de manhã com a visão distorcida. Penso que deve ser efeito dos remédios, mas logo afasto a preocupação da cabeça e engulo mais um comprimido. Mesmo que eu morra amanhã por causa dessas drogas, são elas que evitam que eu passe cada segundo da minha vida morto.

Minha visão volta ao normal imediatamente, levando embora a sonolência e me deixando num estranho estado de constante alerta. A droga\remédio sempre causa esse efeito. Me sinto capaz de ouvir o caminhar das formigas na parede, de enxergar a poeira dançando no ar... E o mais importante, consigo me esquecer do que eu quiser.

Tomo um banho, troco minhas roupas e vou trabalhar. Minha saúde vem piorando numa velocidade monstruosa, mas a aceleração no raciocínio aumenta consideravelmente meu desempenho. Quando percebo, já está quase anoitecendo. Meu expediente deve ter acabado a pelo menos uma hora.

Não me incomodo de verdade. Não tenho muito mais o que fazer afinal. Tomo mais um comprimido e resolvo voltar para casa pelo caminho mais longo, a orla da praia.

Dois anos atrás, eu fazia este caminho todos os dias. Na quela época, eu tinha um motivo. Hoje... Eu não sei. Acho que estou sentindo o fim chegar, e minha determinação está se deteriorando.

Doze de março... O aniversário dela está chegando...

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"Esquecer costuma ser o jeito mais fácil de fazer a coisa mais difícil."

1 de nov. de 2011

A Cidade Onde o Vento Não Sopra

E mais um dia se arrasta, na cidade onde o vento não sopra.

Sem mudanças, sem brilho. Sem tristezas, sem frio. Parada, doente, mas incapaz de apodrecer.

A simples cidade cercada pelas montanhas, morta viva, sem pulso, sem pensamento, cheia de pessoas conformadas e crianças incuriosas. A cidade cinzenta, de céu branco e chão de asfalto, toda decorada com concreto e madeira seca.

Em seu cotidiano, onde nem o tempo sabe mais como fluir, as pessoas se perdem executando funções mecânicas. Sem conhecer renovação, sem conhecer a surpresa, sem conhecer o inesperado, sem conhecer...

E assim, mais um dia se arrasta, na simplesmente monótona cidade onde o vento não sopra.

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"A mudança é um estado constante do homem. Permanecer o mesmo é simplesmente anti-natural, pois é o mesmo que negar cada segundo que vivemos."

27 de out. de 2011

Crônicas de um Espírito - Capítulo 7

Só para constar, eu sou espírita, mas não terminei a evangelização nem nada. Muito do que eu falo vem do meu próprio presumir e entender das coisas, então me perdoem caso haja alguma incoerência com o que é dito na doutrina.


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Todos nós morremos um dia. Está é uma certeza que podemos ter a partir do momento em que nascemos. A morte do corpo virá para todos. As vezes nos apegamos tanto ao passageiro que mesmo depois de muito sofrimento, ainda negamos a mudança. Mas não tenha dúvida, o universo é imparcial e justo. É o nosso trabalho iluminar os pensamentos de nossos irmãos que se deixaram dominar pela matéria.


Já fazem alguns meses desde que eu comecei a acompanhar este caso. Mesmo depois da morte, este irmão se recusou a entender e a aceitar o que se sucedeu, e até o momento ainda não se desprendeu da matéria.


A dor do desfalecer da carne e dos ossos já o levou a loucura diversas vezes, a ponto dele nem mesmo lembrar sua própria identidade. E ainda assim, ele permanece fechado para mim.


É a escolha dele. Enquanto ele não desejar ajuda, não posso intervir. Apenas Deus sabe por quanto tempo ainda vou ter que esperar aqui, ao lado dele, até que algo possa ser feito. 


...


Mais alguns meses se passaram. Mal sobraram ossos agora, e ele fez muito pouco progresso. Durante alguns segundos, ele pôde me enxergar, e esteve bem perto de pedir ajuda. Mas agora que eu já pude amenizar sua dor e ele em fim recuperou algumas de suas memórias, as verdadeiras reflexões irão começar.


Depois, ele precisará de um tempo para se curar de todas as feridas em seu perispírito. Quem sabe então ele estará finalmente preparado para estudar suas próprias atitudes e voltar para corrigir seus erros.


Pobre irmão... 


...


Depois de mais algumas semanas, ele finalmente clamou por minha ajuda. Todas as orações direcionadas a ele durante tanto tempo fizeram efeito, ele parece ter compreendido muito mais do que eu esperava. Agora vem a parte difícil, adquirir a sabedoria para lidar com essa nova compreensão. 


Isso é só o começo de mais um longo trabalho. Mas as coisas serão bem melhores daqui para frente.


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"Quando só existe dor e sofrimento no presente, aqueles que acreditam na felicidade sabem que a única resposta esta no futuro."

26 de set. de 2011

Quintal

As vezes, quando me encontro particularmente incomodado pelo tédio nas horas em que não tenho nada a fazer, eu acabo me sentando em algum lugar fora de casa para observar atenciosamente meu próprio quintal.

Faço isso mais por preguiça na verdade, pois eu poderia muito bem andar até a praia ou vagar por aí a procura de algo para fazer. Não, talvez não seja preguiça exatamente. Não é como se eu estivesse procurando uma paisagem para ver ou um trabalho a ser feito. Eu só quero pensar, clarear a mente, e o meu quintal é o suficiente para isso.

De qualquer forma, ultimamente essa atividade tem se tornando algo cada vez mais doloroso. Não só por causa da chuva e do tempo frio, prefiro muito mais a companhia deles do que a do calor e do sol. Eu estou cansado.

Cada dia que passa eu continuo tateando o chão dentro de um nevoeiro. Sabe, procurando as razões pelas quais eu faço o que faço. Tudo é facilmente respondido, uma vez que homem nenhum faz algo sem propósito. Mas aí chegamos no que mais me incomoda:

"Porque eu NÃO faço o que eu quero?"

O problema não é nem que eu não consigo responder. Pelo contrário, eu consigo, e não sou capaz de fazer nada em relação à resposta.

Se eu não soubesse, bastaria procurar saber. Se eu pudesse fazer alguma coisa, bastaria fazê-lo. Mas ser impotente perante a própria infelicidade é muito frustrante.

É como se eu não estivesse inteiro. Falta alguma coisa, uma parte de mim, da minha alma, algo que vai me preencher com as sensações que eu tanto desejo.

É engraçado. Olhar para o meu quintal já não é mais a mesma coisa.

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"Viva pelo que quiser, se puder. Caso contrário, sobreviva até poder viver."

6 de set. de 2011

Refúgio

As vezes, sinto que estou preso dentro de minha própria mente, caminhando através de cenários que não deveriam estar conectados, vendo momentos tão distantes uns dos outros e principalmente, do agora...

Já não reconheço a "realidade", uma vez que o que me parece ser uma "ilusão" se tornou mais tangível e precioso do que qualquer outra coisa em meu coração. Estaria eu louco, apaixonado por uma fantasia criada por mim mesmo? Louco, por amar com toda minha força aquilo que minhas mãos não conseguem tocar? Sim, devo estar.

Mas essa minha loucura é de longe mais sana do que aquela que infesta minha realidade.

Afinal, não é sem razão que eu não reconheço nada que me cerca. Tudo é tão confuso, tão sem propósito e tão infantil que não me sobram escolhas.

Quando abro os olhos, sinto nojo. Quando os fecho, sobra apenas a solidão. Doce ironia...

Ainda assim, prefiro mantê-los fechados e continuar sonhando. Dessa forma, posso ficar sozinho, mas pelo menos não estarei tão triste.

Volto a caminhar dentro de minha própria mente, fugindo do que é, vendo o que já foi e perseguindo incansavelmente o que nunca será...

Lucas Rangel Lima

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"Quando paramos de tentar realizar nossos sonhos, deixamos a realidade se tornar um pesadelo."